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sábado, 11 de agosto de 2012

Chegará

Enquanto aguardo ansiosamente pelo fim do inverno - não exatamente a estação climática - deixo-vos um texto de Cecília Meireles, querida Cecília que com vários poemas alegrou minha infância e adolescência. A foto que o ilustra é duplamente minha: eu fotografei o arranjo de flores feito de fuxico que eu mesma fiz.

A Primavera trará consigo mais flores


Primavera, de Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

Fonte:  http://www.releituras.com/cmeireles_primavera.asp

quinta-feira, 10 de março de 2011

Mais um poema dezesseis

Este é um post da série "Poemas de Adolescência" rsrs. Pois é, o poema que coloco abaixo escrevi por volta dos meus 16 anos, mesma época em que escrevi outro já postado aqui no blog. 

Lembrei-me de quando estava na sexta série e ganhei um pequeno concurso de poemas sobre festas juninas (pena que perdi o papel onde estava escrita essa preciosidade). O primeiro lugar teve o poema publicado na capa das provas de Português, o segundo nas provas de Redação e o terceiro nas provas de Matemática. Lembro-me de como fiquei surpresa e feliz por ter sido a felizarda com o título!

Mas, voltando, posto agora um poema dos meus 16 anos... Engraçado como eu não gostava de colocar títulos neles...

"Queria que a cada dia fosse diferente
Um percurso diferente, um lugar incomum
Por que as coisas têm de ser tão iguais?
Será que um dia nada pode mudar?
A cada passo que eu der
Seja como for
Eu só quero que o mundo seja mais desigual
Canto uma música
Conto os dias
Até reencontrar você
Pode ser o início e pode ser o fim
Mas não me importo
É assim que deve ser"

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"As coisas querem sorvete..."

A gente gosta de muitas coisas com as quais se identifica, né? Pois bem, assisti a uma série com a qual me identifiquei demais: Tudo o que é sólido pode derreter.

A série, exibida pela Tv Cultura, conta a história de Thereza, uma adolescente que está no seu primeiro ano do Ensino Médio e que vive grandes aventuras inspiradas ou similares às grandes histórias da literatura brasileira e portuguesa, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Os Lusíadas, de Luís de Camões ou Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

De um jeito contemporâneo, leve, divertido e por vezes dramático, a série propõe aproximar os jovens e adolescentes da leitura, algo tão desprezado no nosso Brasil (infelizmente!). Thereza é uma personagem muito interessante, alegre, inteligente e cheia de personalidade, bem interpretada por Mayara Constantino. Aliás, a série surgiu a partir do curta metragem de mesmo nome, de Rafael Gomes e Esmir Filho - que também dirigem os episódios.

É muito legal ver Thereza dialogando com personagens e autores dos livros. Afinal de contas, há uam frase que diz: "Quem escreve, constrói um castelo. Quem o lê, passa habitá-lo". E nesse castelo a gente encontra tantas histórias, tantas pessoas, tanta coisa em comum e ao mesmo tempo tanto a aprender!

Uma coisa que me chamou muito atenção foi a trilha sonora. Quem me conhece sabe que gosto muito de música internacional, mas a seleção de canções foi escolhida a dedo pelos produtores, incluindo vários artistas que estão fora do mainstream.



Muitas séries e filmes sobre adolescentes me dão arrepios por conta de histórias superficiais e personagens sem graça. Mas esse seriado vale muito a pena de ser visto. Você pode ver os episódios na internet, gratuitamente, aqui (foi assim que consegui vê-los!).

"As coisas querem sorvete. Banana, maçã, limão. As coisas querem ser coisas, que na verdade não são..." (As coisas, de Érika Machado, música de abertura da série).

sábado, 30 de outubro de 2010

Dezesseis

Talvez eu esteja em um clima poético ultimamente, mas senti grande vontade de voltar a escrever poesias. No post anterior, coloquei um poema de Mirthes Mathias.


Neste post, coloco um poema de minha autoria. Sim, isso mesmo! Só que não foi escrito agora ou neste ano. Eu tinha 16 anos (por isso o título deste post) quando borbulhavam versos na minha mente e eu colocava-os no papel, inclusive com uma colega de escola, amiga e parceria nos poemas (acho que já comentei sobre isso antes, não foi? rsrs).


Sem mais delongas, apresento-lhes o poeminha... pequeno, simples. Lendo-o agora, percebo como eu tinha um imenso vazio, já preenchido hoje (que bom!) por Cristo.


Bem, começa por aqui
Estou eu, sentada, pensando
Mil idéias rodeiam minha mente
Fico confusa, é como um emaranhado de novelo
Sinto tantas coisas ao mesmo tempo
Mas não consigo expressar nenhuma delas
Fico parada, pareço solitária
Mas estou no meio de uma multidão
Mas do que adianta estar acompanhada
Se ninguém me entende?
Portanto, chego à esta conclusão:
É sempre bom parar pra pensar às vezes

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Mais timidez

No post passado, falei sobre timidez, apresentei o significado presente em alguns dicionários e também minha opinião acerca do assunto, eu, uma tímida.

Hoje, senti vontade de retomar esse tema. Mas de uma forma diferente. Uma forma poética. Talvez isso se dê pelo fato de estar com vontade de escrever novamente alguns versinhos. Sim, acho que já comentei aqui no blog, eu escrevia poesias na época da escola, cheguei a fazer uma parceria com uma amiga e colega de turma. Mas os versos foram ficando para trás, até porque, francamente, prefiro prosa.

Mas, fiz um breve pesquisa sobre poemas e frases famosas acerca da timidez. O primeiro é bem interessante, pois fala sobre escrever também. Aí vai:

Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida. (Fabrício Carpinejar, poeta)

"Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras distantes...
- palavras que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponhos vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão nevegando
nos ares certos do tempo
até não se sabe quando...
- e um dia me acabarei." (Cecilia Meireles, poetisa)

"A ignorância oscila entre a extrema ousadia e a extrema timidez." (Paul Valéry, escritor e poeta)

A timidez é uma condição alheia ao coração, uma categoria, uma dimensão que desemboca na solidão.
(Pablo Neruda, poeta)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Haiti

Por Celimar Morais*


Haiti:
país mais pobre de todo continente americano
localizado no meio do oceano
numa ilha caribenha distante daqui.

Haiti:
cerca de 80% da população analfabeta
sem contar a fome, a desnutrição, a guerrilha numa terra
que luta, luta para subsistir.


Haiti,
como conseguistes resistir tantos anos
sendo explorado, subjugado, esquecido nos cantos
longínquos, tão distantes,
que o mundo só te enxergou
depois que um terremoto devastou
o pouco que tinhas conquistado para ti?


Haiti!
Será que esse tremor de menos de 15 segundos
foi necessário para fazer com que o mundo
voltasse seus olhos para ti?
Mas, Haiti, não te iludas!
De ti, muitos já esqueceram…
… ou nem sequer chegaram a sentir sua dor:
a dor dos sobreviventes, do país inteiro
a dor dos 90 mil órfãos,
dos 200 mil feridos e mutilados,
a dor de 1 milhão de desabrigados,
dos sem atendimento médico adequado,
dos que já dependiam de iniciativas de outros governos
e que, agora, urge que o mundo inteiro
atente para sua triste,
miserável
e precária realidade.


Haiti,
não quero ser pessimista,
mas preciso que admitas
que não é qualquer um que vai querer investir:
transformar um país leva décadas!
Sem falar no montante de verbas
e recursos humanos para te reconstruir.


Oh, Haiti…
Não quero com isso mexer em suas feridas…
(ainda abertas, expostas, à vista),
mas fazer com que quem me lê ou ouve possa refletir.


Sim!
Tu que lês ou escutas este poema:
tenho um recado para te transmitir!

Há em ti…
um sentimento que move
teu coração e absorve
um pouco da dor do Haiti.


Há em ti…
bem lá no fundo do peito
um desejo profundo e intenso
de, de alguma forma, servir.
Sabe por quê?!


Há em ti o Caminho,
a Verdade, a Vida,
a Segurança, a Paz, a Saída,
a Esperança certa para um novo Haiti!
Há em ti
o Espírito Santo de Deus
Aquele que move os Seus
a conhecer, orar e investir.


Há em ti
a fé que move montanhas!
Portanto, ores sem cessar: o Haiti clama
para ser verdadeiramente feliz!


Haiti!
Eu aceito ir aí para ajudar-te!
Dar-te-ei meu tempo, forças e habilidades
por amor Àquele a quem escolhi seguir e servir.

Haiti…
Só Jesus mesmo pra mudar totalmente minha rotina:
a deixar faculdade, trabalho, segurança, família…
Mas é o que Ele mesmo faria, pois também morreu por ti.

Haiti,
eu tenho orado por tua situação!
E exulta o meu coração
por tamanho privilégio
que é servir a meu Deus servindo a ti.


Ah… e ti?
Em que podes cooperar
(ir, investir, orar)
pela reconstrução do novo Haiti?
Olha!


Há em ti uma parte
do tamanho que cabe
em teu bolso para investir!


Haiti… está a clamar
Há em ti… possibilidade de ajudar
O desafio lançado está:


Ah…
… e ti?



Camaçari-BA, (madrugada entre) 05 e 06 de maio de 2010


*Celimar Morais estará daqui há três semanas no país mais pobre de todo o Ocidente e que, depois do terremoto do dia 12 de janeiro, tem 250 mil casas destruídas, mais de 15 mil casas abaladas, a maior parte dos prédios públicos, igrejas, escolas e hospitais destruídos sem falar no 1 milhão de desabrigados, 250 mil mortos, 200 mil feridos e 90 mil órfãos...

Ela fará parte da Caravana da JMM (Junta de Missões Mundiais) que levará ajuda humanitária e espiritual ao país no período de 5 a 17 de outubro.

Além de orar, você pode também contribuir com a viagem. Escreva um comentário informando seu email para que seja enviados os dados da conta a depositar a ofertar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Momento poético

Levantai os olhos... e vede o campo

Lá fora, além das paredes que te cercam
e protegem, longe do calor que te aquece
o corpo e o coração, está a grande vinha do Senhor;
crianças que perderam os pais,
mil mulheres que vendem o corpo,
milhões de jovens que procuram uma razão de ser;
povo, que é teu povo, caminhando
irremediavelmente para o abismo...
Pára. Olha. Pensa. E ouve teu desafio
na própria voz do Mestre:
“Levantai os olhos e vede...
Vai hoje trabalhar na vinha...”
Ainda é tempo de obedecer,
alcançar a vinha aqui, ali, além;
sustentando aqueles que vão,
onde estiver um deles pregando a salvação,
tu estarás, também.


Mythes Matias

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Via Láctea


"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...


E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.


Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"


E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".


Olavo Bilac

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Alguém como Daniel

Senhor, seria ingênuo e ridículo,
Se não fosse tão sincero o anseio.
Mas a quem buscar, com este coração sensível,
Este corpo frágil, e esta alma que sonha,
Se não a Ti que me conheces,
Pois que me fizeste?

Quero amar alguém, Senhor, mas alguém
Que me ajude a chegar cada vez mais perto de Ti.
Reconheci que a felicidade é relativa,
E proporcional à proximidade Tua.

De que me aproveita ser admirada, querida
por alguém que não te conhece,
que não te reconhece como Senhor,
e amigo verdadeiro?

Quero ser para aquele que te peço,
Uma das demais coisas que lhe acrescentas,
Porque antes te buscou primeiro.

Quero um amor tão forte e duradouro
Como uma prova que de Ti desceu.
Capaz de compensar minha fragilidade,
Que, tendo como meta a eternidade,
Já na terra seja um pedaço de céu.

Não te peço um Davi de Miguel Ângelo,
Nem um César com poder na mão:
Peço-te um homem verdadeiro,
que eu possa chamar de "companheiro".
que antes de esposo seja meu irmão.

Quero alguém que eu admire tanto
E que saiba tanto se fazer amar,
Que eu não me importe de diminuir
Para fazer grande o comum porvir
Do qual eu me orgulhe de participar.

Quero-o de joelhos diante de Ti,
Mas de pé diante do mundo cruel.
Que nada tema senão te ofender,
Que nada busque senão Teu querer,
Nos dias de hoje, um outro Daniel!


Myrtes Matias

terça-feira, 12 de maio de 2009

Caminhos de Deus

"Somos caminhos que Deus usa.”

Senhor, do alto sei que vês melhor,
quanto mais se sobe, maior a visão;
Teus olhos abrangem a eternidade:
contemplam o sol em sua imensidade,
vêem o verme a se arrastar no chão.


Para que então ficar gritando ao mundo:
olha o que tenho, o que sei, que sou?
Se lá do alto vês o mundo todo,
Tu sabes, Senhor, onde eu estou.

Tu sabes por que vim ao mundo,
tens uma missão pra mim.
Nada mais falta que submissão,
dizer – Ordena. Abrir o coração.
Ouvir a ordem e obedecer assim:

Sem importar a obra que a mim couber,
ou o lugar em que meu campo esteja.
Pode ser obscura minha atuação,
o que me importa é Tua aprovação,
ser tudo aquilo que queres que eu seja.

Talvez não tenha a sorte das estrelas
que belas cintilam, dando inspiração.
Talvez meu campo seja o mais mesquinho;
que me importa, se me tornar caminho
por onde passe a Tua compaixão?


Foram caminhos os servos do passado,
através de História um traço de luz:
Abraão, Moisés, José, Rute, Davi,
Jonas, Ester foram no tempo aqui
apenas caminhos em direção da cruz.

Os que vieram depois também são caminhos
por onde a graça de Jesus passou
em busca do oprimido e do aflito,
caminhos que se fundem no infinito
no Único Caminho que um dia me salvou.

Agora, Senhor, a minha prece:
eu quero a graça de participar,
se não posso ser um caminho brilhante,
faze-me atalho na serra distante
mas onde o mundo veja Teu amor passar.

Usa-me, Senhor, durante todo o tempo,
para que no dia em que voltar ao céu,
possa dizer-Te, com um sorriso doce:
- Nada fiz, nada ajuntei, eu nada trouxe,
na terra fui apenas um caminho Teu.



Myrthes Matias

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Em uma fase poética...

Estou assim em uma fase poética. Uma música aqui, versos de poemas famosos ali, uma frase de algum ícone da história em outro ponto. Uma fase que me acompanha a poucos dias e que não tenho previsão do quanto vai durar. Uma dúvida passeia pela minha mente: Quem lê meu blog? Porque há duas semanas mais ou menos coloquei contador de visitas e já registra mais de 400... Sei que devo ter entrado umas 30 vezes, mas quem são os outros? Algumas pessoas chegam e deixam mensagens bem legais, mas são raras e poucas. Outras simplesmente olham e não emitem nenhum tipo de opinião. Gostaria muito de saber o que você, leitor, pensa a respeito desse espaço. Que é uma espécie de "diário pessoal", mas que acabo divulgando.


Minha curiosidade é saber o que você pensa a respeito do Flor de Lidi, por isso, não se acanhe e escreva um recado!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Quando estiver em dificuldade...

Quando estiver em dificuldade
E pensar em desistir,
Lembre-se dos obstáculos
Que já superou.
OLHE PARA TRÁS.

Se tropeçar e cair, levante,
Não fique prostrado,
Esqueça o passado.
OLHE PARA FRENTE.

Ao sentir-se orgulhoso,
Por alguma realização pessoal,
Sonde suas motivações.
OLHE PARA DENTRO.

Antes que o egoísmo o domine,
Enquanto seu coração é sensível,
Socorra aos que o cercam.
OLHE PARA OS LADOS.

Na escalada rumo às altas posições
No afã de concretizar seus sonhos,
Observe se não está pisando em alguém
OLHE PARA BAIXO.

Em todos os momentos da vida,
Seja qual for sua atividade,
Busque a aprovação de Deus!
OLHE PARA CIMA.

"Nunca se afaste de seus sonhos,
pois se eles se forem,
você continuará vivendo,
mas terá deixado de existir".


Charles Chaplin

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Chegou a primavera....


A duas flores


São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!



Castro Alves

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Tão antigo, tão atual

Rio, 27 de dezembro de 1947


O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira


Mesmo escrita em 1947, esse poema de Manuel Bandeira é tão atual. É como se ele estivesse vendo uma cena hoje, muito comum nas nossas grandes cidades: Homens, mulheres, crianças procurando comida en grandes caixas de lixo. Além de comida, buscam também materiais recicláveis: garrafas plásticas ou de vidro, papéis, papelão... qualquer coisa que possa lhes render alguns trocados. Sinto a mesma sensação de contemporaneidade quando leio Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A siutação do Nordeste em algumas áreas não mudou muito de 1938 - data de publicação do famoso livro - até 2008. Setenta anos depois, as coisas são tão [tristemente] semelhantes.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta
nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta

nem o céu de sempre.
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,

o nosso nome,
o som da nossa voz,
o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,

a idéia de recompensa e de glória.
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,

vigiados pelos próprios olhos severos conosco,
pois o resto não nos pertence.

Cecília Meirelles

terça-feira, 6 de maio de 2008

Famosos versos

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 22 de março de 2008

Poemas da infância...

Bolhas

Olha a bolha d’água no galho!
Olha o orvalho!
Olha a bolha de vinho na rolha!
Olha a bolha!
Olha a bolha na mão que trabalha
Olha a bolha de sabão na ponta da palha

brilha, espelha e se espalha
Olha a bolha!
Olha a olha que molha a mão do menino:

A bolha de chuva na calha!

Cecília Meireles




A Bailarina

Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda
com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir
como as outras crianças...

Cecília Meireles

segunda-feira, 10 de março de 2008

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Algumas memórias

Lembro-me, eu deveria ter uns dez anos, gostava de ver e ler os livros de minha irmã, que é uns 4 ou 5 anos mais velha que eu. Muitas coisas de Química e algumas equações de Matemática aprendi bem antes do tempo previsto. Também folheava um livro de Geografia, na verdade um livro de Atlas: Geoatlas. Ficava horas e horas olhando mapas físicos e políticos dos continentes, aprendia os nomes dos países e de suas respectivas capitais. Talvez o que eu quisesse mesmo era imaginar que um dia eu poderia viajar para os diferentes lugares do mundo e conhecer culturas tão distintas.
Outra coisa que me lembro era a paixão por livros de Português, principalmente aqueles que enfocavam a literatura, a interpretação de textos. Lia e me envolvia com aquelas histórias, aquelas palavras ali de tantos literatos famosos. Era Drummond, Cecília, Mario e Oswald, Clarice e tantos outros que preenchiam aquelas páginas.
E em uma daquelas folhas, vi um poeminha curtinho, singelo, mas que sempre me fazia rir. Uns dois ou três anos depois, lembro de te comentado o poema com uma amiga, que ria pelo fato de uma personagem ter um de meus apelidos. Aí vai:


Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Carlos Drummond de Andrade

É isso.