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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Eu quero um texto

Foto antiga, mas revela minha paixão
pela escrita mesmo durante o trabalho 
Eu quero um texto. Eu quero um texto que seja fácil de escrever, mas que ao mesmo tempo me faça pensar muito, medir cada palavra. Também quero um texto que seja extenso, mas não cansativo; que seja rápido de ler, mas não raso.

Eu quero um texto pessoal, mas que fale a uma multidão. Quero que cada pessoa leia e se identifique, seja em parte, seja no todo. Também quero um texto simples para os menos cultos e instigante para os intelectuais.

Eu quero um texto que faça as pessoas imaginarem várias coisas e ao mesmo tempo não pensarem em nada. Quero um texto que seja suficientemente bom para ser publicado em um livro e suficientemente prático pra ser enviado via e-mail para os amigos.

Eu quero um texto que explore palavras pouco usadas, mas que dê espaço para neologismos e gírias. Que, de crianças a idosos, todos possam se sentir parte do universo ali retratado.

Eu quero um texto de ficção não-ficção. Um romance, um conto, uma crônica, prosa e poesia, tudo muito junto. Lírico, épico, dramático. Tudo junto. Em primeira ou terceira pessoa. Realismo fantástico ou entrevista. Dicionário e terror. Aventura e biografia. Científico e religioso. E muito mais.

Como são muitas coisas, eu não quero um texto apenas. Eu quero vários textos. Que não caibam em livros. Que possam transbordar os pensamentos. Mas que, em algum momento, sejam lidos.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

"As coisas querem sorvete..."

A gente gosta de muitas coisas com as quais se identifica, né? Pois bem, assisti a uma série com a qual me identifiquei demais: Tudo o que é sólido pode derreter.

A série, exibida pela Tv Cultura, conta a história de Thereza, uma adolescente que está no seu primeiro ano do Ensino Médio e que vive grandes aventuras inspiradas ou similares às grandes histórias da literatura brasileira e portuguesa, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, Os Lusíadas, de Luís de Camões ou Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

De um jeito contemporâneo, leve, divertido e por vezes dramático, a série propõe aproximar os jovens e adolescentes da leitura, algo tão desprezado no nosso Brasil (infelizmente!). Thereza é uma personagem muito interessante, alegre, inteligente e cheia de personalidade, bem interpretada por Mayara Constantino. Aliás, a série surgiu a partir do curta metragem de mesmo nome, de Rafael Gomes e Esmir Filho - que também dirigem os episódios.

É muito legal ver Thereza dialogando com personagens e autores dos livros. Afinal de contas, há uam frase que diz: "Quem escreve, constrói um castelo. Quem o lê, passa habitá-lo". E nesse castelo a gente encontra tantas histórias, tantas pessoas, tanta coisa em comum e ao mesmo tempo tanto a aprender!

Uma coisa que me chamou muito atenção foi a trilha sonora. Quem me conhece sabe que gosto muito de música internacional, mas a seleção de canções foi escolhida a dedo pelos produtores, incluindo vários artistas que estão fora do mainstream.



Muitas séries e filmes sobre adolescentes me dão arrepios por conta de histórias superficiais e personagens sem graça. Mas esse seriado vale muito a pena de ser visto. Você pode ver os episódios na internet, gratuitamente, aqui (foi assim que consegui vê-los!).

"As coisas querem sorvete. Banana, maçã, limão. As coisas querem ser coisas, que na verdade não são..." (As coisas, de Érika Machado, música de abertura da série).

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Um Apólogo

Machado de Assis


Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!




Indicado por Vivian Alves